terça-feira, 30 de outubro de 2012

Capítulo 8 - 3, 2, 1...

(Clove)

É hoje o dia. Estou num elevador com a Enobaria. Quando este se abrir, estará diante dos meus olhos a aeronave que nos guiará para a arena. Segundo as regras, os tributos sobem um de cada vez no elevador, por ordem do número do Distrito, primeiro o rapaz e depois a rapariga. Tem de subir com o seu mentor, será a ultima oportunidade deste lhe dar um concelho e de lhe desejar boa sorte, e depois, as probabilidades de voltar a ver o seu tributo serão muito poucas. Espero que a Enobaria me volte a ver com vida.
- Pronta? – pergunta ela.
- Eu nasci pronta. – respondo.
- Nascemos todos… - ela remata.
O elevador abre-se. Ela apenas me diz.
- Vê se tens pontaria miúda das facas.
- Até um dia e obrigada. – respondo, e começo a minha caminhada até a aeronave. Encontra-se a uns 30 metros de mim. Perto das escadas está um homem vestido de branco, parecido com um soldado da paz que me faz um gesto de aprovação com a cabeça. Reparo que há homens assim vestidos há volta de todo o perímetro da pista. Talvez para nenhum de nós fugir.
Toco nas escadas que estão à minha frente e estas colam-me à escada com uma espécie de corrente eléctrica e sou içada para dentro da aeronave. Uma mulher aguarda-me com uma seringa na mão.
- É um chip de localização, não te mexas, para o introduzir correctamente.
Não percebo como é que ela tenciona que eu me mexa visto que estou “paralisada”. Ela introduz o chip no meu braço e acompanha-me para dentro. A aeronave é constituída por duas subsecções com 12 cadeiras cada uma, 6 de um lado e 6 do outro, o que faz com que fiquemos frente a frente com os 6 tributos que estão do lado oposto ao nosso. 


A mulher ordena-me que me sente na ponta, do lado oposto ao Cato. Há uma cadeira vazia ao seu lado e do seu outro lado está a Glimmer sentada. Visto que são lugares marcados, não me posso sentar ao pé dele, mas ele não se deve importar nada já que está a falar tão alegremente com ela. Quando sente a minha presença olha para mim. Está a sorrir, a Glimmer parece ser uma óptima companhia, por isso simplesmente desvio o olhar.
Pouco a pouco vão entrando novos tributos. Fiquei ao lado da rapariga do 12 e de frente para a rapariga do 11. Na minha secção está também a ruiva do 5, o miúdo do 4, o rapaz do 3, o Cato e a Glimmer. Não consigo ver os outros porque o cinto das cadeiras quase que nos obriga a mantermos as costas direitas, mal me consigo inclinar para ver a rapariga do 12 que está mesmo ao meu lado. Melhor assim, não tenho de olhar para o Cato e a Glimmer a sorrir um para o outro. Na outra secção vejo o Marvel, ele levanta a mão e eu retribuo.

A viagem dura cerca de meia hora. Sinto a aeronave a aterrar. Olho para a cara dos tributos dos Distritos fracos. Não vejo mais nada sem ser o medo estampado. Para falar a sério estou bastante tranquila. A ordem de saída é igual à de entrada. Mandam o Marvel sair. Depois a Glimmer. Ouço um “Até já” numa voz bastante contente e a Glimmer passa por mim a sorrir. Cada vez ganho mais raiva dela. Não percebo porquê…
Quando ouço chamarem o nome do Cato o meu coração exalta-se. Quando ele passa por mim passa a mão pela minha cabeça e olha para mim. Eu sorrio-lhe de volta. Bolas, não! Ele gosta da Glimmer e ela dele! Não posso pensar mais nele, a partir de agora acabou. Seremos apenas aliados até sermos virados um contra o outro e aí, que ganhe o melhor. Chamam o meu nome. O meu cinto desaperta-se sozinho. Só aí percebo que são cintos automáticos, não o podia ser eu a tirar mesmo que quisesse. Saio da aeronave e sou levada até um corredor. Acompanhada por dois daqueles homens vestidos de branco, sou levada até uma porta que está lá ao fundo. Ficamos parados à porta.
- O que está para lá desta porta? – pergunto, devido à, hesitação fiquei curiosa. O homem recebe uma mensagem que não consigo perceber para um pequeno rádio que tem no ombro e responde numa espécie de código e abre a porta. Entramos então numa gala gigante em forma de círculo com imensas portas à sua volta. Percebo então que estamos por baixo da Cornucópia e estas portas vão dar acesso ao sítio que nos vai levar lá para cima, para a arena, onde teremos de ficar 60 segundos por cima de umas placas de metal. Depois irá começar o banho de sangue.

(Peeta)
Já estou na minha placa de metal. A Portia apenas olha para mim e eu para ela. Não há nada a dizer. Apenas esperar. De repente, um cilindro de vidro fecha-se à minha volta. Agora sim não há volta a dar. A Portia sorri e, apesar de não a ouvir, consigo ler nos lábios dela um “Boa sorte”. Não tenho tempo de reagir porque a placa de metal começa a subir. Durante cerca de 15 segundos estou no meio da escuridão. O meu coração cada vez bate mais depressa. Não consigo pensar em mais nada sem ser no que vai acontecer a seguir. Tenho de fugir. Fugir o mais rápido possível. Espero que os 60 segundos que se seguem me dêem tempo para pensar para onde fujo.
É então que sinto. Uma brisa na cara que me afasta a franja da testa. Depois de me habituar à luz ouço:
- Minhas senhoras e meus senhores, bem-vindos aos Septuagésimos Quartos Jogos da Fome!
Olho à minha volta. Não acredito que estou aqui, na arena. No sítio onde sempre desejei nunca pôr os pés. Estou arrepiado e a tremer. Tenho medo. Como será a vida da minha família sem mim? O que me vai acontecer? Tenho um bosque do meu lado esquerdo, do meu lado direito deve ser um penhasco porque não vejo lá nada. Está um lago à minha frente e um campo com ervas muito altas ao pé do bosque. O bosque. É para lá que tenho de ir assim que o gongo da matança tocar. 


A Cornucópia está mesmo no centro do círculo. Vejo que dentro dela estão os bens mais preciosos, e quanto mais longe, menos preciosas são as coisas. Olho para a Katniss. Não acredito. Ela está a olhar para um arco e flechas que estão encostados a Cornucópia. Ela quer ir buscá-los. Não. Não pode. Vai morrer isso é certo. Foi tudo o que o Haymitch disse para não fazermos. É um risco demasiado grande enfrentar os outros tributos, principalmente os profissionais. Porque acha que se chama banho de sangue ao momento inicial dos Jogos? São todos os cães a irem ao mesmo osso. É quando a maior parte dos tributos morre. Lembro-me de uns Jogos que logo no banho de sangue morreram a maior parte dos tributos e ficaram cerca de 8 ou 9, e foi tudo tão rápido. Ela olha para mim. Eu abano a cabeça. Ela fica confusa a olhar para mim. 3, 2, 1...de repente o gongo toca. Desato a correr no sentido contrário à Cornucópia em direção ao bosque, sem pensar, sem querer saber, apenas a correr até as minhas pernas não aguentarem mais. Vejo que a rapariga do 11 fez o mesmo que eu. Olho para trás. Vejo todos os tributos a correr em direção à Cornucópia menos um. Um que continua em cima da placa de metal. Sem reação. É a Katniss.


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